Era tarde e ela estava só. Estava só em seu carro e estava só em sua vida. Não havia ninguém, simplesmente ninguém. Isso era bom. Não havia nenhum cordão, nenhum laço ou ligação. Ela estava só em seu carro, indo pra onde ela quisesse ir, fazer o que quisesse fazer. Isso era bom. Certo? Lembrava-se da mãe lhe dizendo que as mulheres independentes 'certamente eram mais felizes'. O pai, aquele autoritário, abusivo, que de tão autoritário e abusivo morrera de um ataque fulminante, deixando a mãe e ela, filhinha de seu coração autoritário e abusivo sozinhas. E a solidão começou daí, porque ela e a mãe eram companheiras na solidão. Elas eram sozinhas que moravam juntas.
Ali em seu carro ela não mais pensava na mãe morta há algum tempo. Nem no pai autoritário e abusivo. Não pensava por assim dizer. Dirigia automaticamente pra algum lugar que ela não sabia onde era e que nem se importava em saber. O que importava era estar na estrada, dirigindo, acelerando, acelerando pra valer. Os carros, as pessoas e os lugares passavam sempre mais depressa. Tudo virou um borrão. Na sua vida tudo era um borrão. Os sentimentos, as relações, tudo não passava de borrão. O carro ficou mais rápidos, os borrões se transformaram em lampejos de luz. Luz. De repente tudo era luz. Uma luz cada vez mais radiante, mais brilhante, mais linda. Ela quis pegar a luz. Ela correu atrás da luz.
Seu corpo foi encontrado dois dias depois por um casal de namorados.
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