Quando ela se deitou na banheira ainda não tinha muita certeza do que queria fazer. Apenas fechou os olhos e sorveu um gole do vinho que trouxera consigo, certa de que naquele momento a solidão também bebia em seu copo com o mesmo (des)gosto. Não havia muito a ser conquistado mais: um emprego perfeito, o salário cheio de zeros que lhe permitia encher o closet de roupas compradas no exterior. Um namorado inteligente, bom de cama e altamente descolado. Reuniões com amigos regadas a vinhos e queijos importados, as últimas tendências penduradas na parede, viagens à Aspen, requinte, luxo e sucesso. E mesmo assim, ela não sabia o que fazer com tudo aquilo. Porque quando todos iam embora, tudo que restava era uma solidão sem preço e uma tristeza que de sofisticada nada tinha. No apagar das luzes toda aquela sofisticação e independência parecia fútil, vazia, incompleta e ainda que ela reunisse todos os predicados possíveis, nada conseguia melhorar. E foi por isso que ela engoliu a primeira pílula. A segunda e a terceira vieram como um impulso de quem pensa estar fazendo a coisa certa, de quem, pela primeira vez sente o sangue correr pelas veias, sente o coração pulsar. Depois da quarta pílula ela não pensou muito mais, apenas queria ser eficiente o suficiente para chegar ao fim do frasco, queria apenas que tudo aquilo acabasse e que doassem todos os bens que ela havia adquirido para os menos necessitados, porque ela ainda podia fazer algo que valesse a pena. Pouco antes de perder a consciência, seu último pensamento lúcido foi: sucesso.
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